
Mudanças na Caixa às vésperas das negociações acendem alerta e geram cobrança por respeito aos empregados

A poucos meses do início das negociações específicas da campanha nacional das empregadas e empregados da Caixa Econômica Federal, mudanças de responsáveis promovidas pela direção do banco em áreas estratégicas, inclusive na área de Pessoas (responsável pelas tratativas com as entidades sindicais) acenderam um alerta entre os representantes dos trabalhadores. Para a Comissão Executiva dos Empregados (CEE), que assessora a Contraf-CUT e o Comando Nacional dos Bancários nas negociações com o banco, as substituições realizadas às vésperas do início da Campanha Nacional geram insegurança e colocam em risco a continuidade de debates importantes que já vinham sendo construídos ao longo da mesa permanente de negociação.
O movimento sindical lembra que situação semelhante ocorreu no ano passado, quando a Caixa promoveu mudanças na equipe responsável pelas negociações durante as discussões sobre o ACT do Saúde Caixa. Na avaliação das entidades, a troca naquele momento dificultou o avanço das tratativas e atrasou encaminhamentos considerados fundamentais para os empregados.
Segundo o coordenador da CEE/Caixa, Felipe Pacheco, as alterações não podem ser tratadas apenas como mudanças administrativas internas, porque impactam diretamente o processo negocial. “Estamos falando de áreas estratégicas e de profissionais que já acompanhavam pautas extremamente sensíveis para os empregados e empregadas da Caixa. Quando a empresa promove mudanças desse porte às vésperas das negociações, isso gera instabilidade, prejudica a continuidade dos debates e levanta preocupação sobre qual será o compromisso efetivo da direção com a manutenção do diálogo”, criticou.
Saúde Caixa e pautas centrais
Felipe lembra que diversos temas já vinham sendo debatidos entre a representação dos trabalhadores e a Caixa e serão centrais na campanha deste ano. Entre eles está o Saúde Caixa, especialmente a reivindicação pelo fim do teto de custeio imposto pela empresa, apontado como um dos principais fatores que comprometem a sustentabilidade do plano e ampliam os custos para os empregados.
“Temos uma série de discussões acumuladas que exigem continuidade. O Saúde Caixa é uma delas. O teto de gastos, incluído pela empresa em seu estatuto, compromete o equilíbrio do plano e transfere prejuízos para os trabalhadores. Não é razoável começar uma negociação tão importante desmontando equipes e interrompendo processos que já estavam em andamento”, afirmou. “E esperamos que não sejam promovidas novas mudanças na equipe no decorrer das negociações, como ocorreu no ano passado”, completou.
Super Caixa e outros pontos de remuneração variável
Além do Saúde Caixa, a CEE destaca que a pauta deste ano deve envolver negociações sobre remuneração variável, incluindo o Super Caixa e a Participação nos Lucros e Resultados (PLR); reivindicações específicas de caixas executivos e tesoureiros; além da cobrança pelo fim do fechamento de agências e unidades da Caixa em todo o país.
Para o movimento sindical, a redução da rede de atendimento prejudica não apenas os empregados, com perda de funções, rebaixamento de porte de agências e impactos na carreira, mas também a população brasileira, especialmente em regiões mais afastadas, onde a Caixa cumpre papel social essencial.
“A pauta de reivindicações ainda será definida no Conecef e na Conferência Nacional dos Bancários, mas é certo que o fim do teto do Saúde Caixa deverá estar entre as prioridades, assim como é certo que a Caixa é um banco público e precisa cumprir sua função social. E o fechamento de agências afeta trabalhadores e também a população, que passa a percorrer distâncias maiores para conseguir atendimento. Isso é ainda mais grave em municípios onde a Caixa, muitas vezes, é a principal referência bancária. Ou seja, essa política que vem sendo tocada pela direção da empresa, como se a Caixa fosse mais um banco privado, traz sérios prejuízos para o cumprimento desta função social”, observou Felipe Pacheco.
Empoderamento feminino
Outro ponto que voltou ao centro das críticas do movimento sindical com a mudança de nomes em cargos de comando na Caixa, é o descumprimento, pelo banco, do compromisso de ampliar a participação feminina nos espaços de direção. Em junho 2025, o Senado aprovou o Projeto de Lei 1246/2021, que define uma reserva mínima de 30% de mulheres nos conselhos de administração das empresas estatais federais.
>>>>>Senado aprova cota de 30% de mulheres em CA de estatais
Antes disso, em maio de 2025, a Caixa anunciou mudanças em seu Estatuto Social para atender parcialmente uma reivindicação do movimento sindical, que pede o respeito à proporcionalidade de gênero do banco nos cargos de gestão. Na ocasião, o banco incluiu em seu estatuto o percentual mínimo de 30% de mulheres em cargos de direção, englobando as diretorias e vice-presidências.
>>>>>Caixa anuncia mudanças em seu estatuto
Para a ex-conselheira de Administração da Caixa, eleita pelas empregadas e empregados, Fabiana Uehara, a empresa precisa transformar o discurso sobre diversidade em prática concreta. “A Caixa assumiu publicamente o compromisso de ampliar a participação das mulheres nos cargos de direção, inclusive nas vice-presidências, mas isso não está sendo cumprido. E agora, acaba de nomear um homem para a vice-presidência de Pessoas, um cargo que, mesmo que interinamente, era ocupado por uma mulher”, observou. “Não basta defender diversidade em campanhas institucionais, fazer evento para anunciar mudança no estatuto, se, na prática, as mulheres seguem sub-representadas nos espaços de poder e decisão”, criticou Fabi, como é conhecida pelas colegas e colegas de trabalho no banco.
Ela ressalta que a defesa da equidade de gênero foi uma pauta permanente de sua atuação no Conselho de Administração e afirma que a representação dos trabalhadores continuará cobrando transparência sobre as decisões da empresa.
“Estamos falando de um banco público, que deve dar exemplo para a sociedade. A valorização das mulheres na liderança não pode ser tratada como peça de marketing. Precisamos de compromisso efetivo, transparência e respeito às metas anunciadas pela própria empresa”, afirmou Fabi. “Inclusive, no Conselho de Administração, registrei em ata que a próxima nomeação para a Diretoria Executiva deveria ser de uma mulher, já que hoje elas não representam nem 24% da composição”, completou.
Abalos
Para a CEE/Caixa, a preocupação não se restringe às mudanças de nomes ou funções, mas ao impacto político dessas decisões sobre o ambiente de negociação. “A categoria espera que essas substituições sejam apenas uma reorganização administrativa e não a intenção de enfraquecer o diálogo e alterar o rumo das negociações deste ano. O movimento sindical continuará vigilante e cobrando respeito aos empregados e empregadas da Caixa”, concluiu Felipe Pacheco.
O coordenador da CEE reforçou também que espera que tais mudanças não prejudiquem os compromissos assumidos pelo banco nas últimas mesas de negociações com efetividade de medidas de combate à violência contra as mulheres, inclusive com a garantia da renda (manutenção da gratificação de função e do porte de agência) para casos de mulheres que optem pela transferência de unidade para garantir sua integridade física e mental diante de violência sofrida.
>>>>>CEE e Caixa debatem melhorias no canal de atendimento às vítimas de violência doméstica
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