SEEBPPMS - Sindicato dos Bancários de Ponta Porã e Região

Contraf CUT Contraf CUT
20 de Março de 2026

Dirigentes sindicais debatem estratégias para enfrentar o feminicídio na sociedade e na categoria

Cerca de 60 mulheres do movimento sindical do ramo financeiro, de todo o país, participaram nesta quarta-feira (18) do seminário "Estratégias para enfrentar o feminicídio na sociedade e na categoria". O evento, promovido pela secretaria da Mulher da Confederação Nacional das Trabalhadoras e dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), foi parte de uma série de ações realizadas que acontecerão neste mês, marcado pelo Dia Internacional da Mulher (8/03).

"Escolhemos um tema difícil de abordar, mas necessário, trazendo o que nós, como categoria, desenvolvemos para combater o feminicídio e a violência de gênero, como uma contribuição para a sociedade e demais categoriais", destacou na abertura Fernanda Lopes, secretária da Mulher da Contraf-CUT. "Todas aqui sabem o medo que temos que enfrentar diariamente ao sair de casa, algumas dentro da própria casa. E tenho certeza que, da mesma forma que se temos mais direitos hoje é por causa da luta de mulheres que viveram antes de nós, é lutando agora que vamos deixar um mundo melhor para nossas filhas, nossas netas. Essa luta inclui saber conversar com meninos, hoje extremamente influenciados pelos discursos ‘red pill’ (movimento misógino) facilitados pelas redes sociais", completou a dirigente.

Ainda na abertura, a presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, fez uma breve retrospectiva da trajetória das mulheres no movimento sindical bancário. "Se lá atrás não tívessemos feito o que fizemos, não tivéssemos organizado coletivos de mulheres, criado secretariais, comissões, se não tivéssemos articulado propostas, feito essa unidade nacional das mulheres, em especial, em torno de pautas para as mulheres, entendendo que temos dois sexos, com inúmeros gêneros, que nos obriga a olhar cada grupo com um olhar diferenciado, e não toda a categoria como um todo homogêneo, nós não estaríamos aqui, não teríamos conquistado tanto na Convenção Coletiva de Trabalho, não teríamos empoderado mulheres em vários sindicatos e não teríamos empoderado mulheres em vários espaços de poder", relembrou.

seminário mulheres

"Ainda somos sub representadas, tanto no movimento sindical quanto nos espaços de poder político. Apesar de termos avançado muito, temos ainda muito no que avançar, por isso a importância desse seminário, como mais um espaço para prosseguir na construção de um mundo melhor", observou Juvandia, completando sobre a importância da participação dos homens para que a cultura da masculinidade seja substituída pela cultura da paz, igualdade e equidade. "Sem isso, não vamos conseguir acabar com a discriminação de gênero e raça, porque a mesma cultura que normaliza comportamentos violentos e agressivos de homens contra mulheres é a mesma que sustenta o racismo", pontuou.

Na mesa "Desigualdade de gênero e violências: caminhos para superação", Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários e Bancárias de São Paulo, Osasco e Região (Seeb-SP), reforçou que o aumento de casos de feminicídios no país revela "um atraso civilizatório", que exige ainda mais o comprometimento dos movimentos sociais progressistas, especialmente dos homens, para ser combatido. A dirigente destacou ainda que conquistas das bancárias, obtidas em mesas de negociação, como cartilhas de conscientização voltadas à sociedade e aos homens, sobre desigualdade de gênero, violência contra a mulher e como combatê-los, são importantes avanços que se somam às contribuições da categoria para "trazer soluções à sociedade", por meio da informação que conscientiza.


As múltiplas formas de violência contra a mulher

Rosangela Vieira, economista e técnica do Dieese, apresentou um relatório produzido pela entidade com os dados sobre o cenário atual da violência de gênero, na sociedade e no mercado de trabalho. "Ano após ano, as desigualdades permanecem no mercado de trabalho, porque as causas dessas desigualdades, por questões de gênero, raça, capacidade física e diversidade são estruturais, ou seja, combater essas desigualdades requer a atuação de múltiplos atores", destacou.

Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, em 2025, cerca de 27 milhões de mulheres declararam já terem sofrido violência doméstica e familiar no Brasil. A maioria dos casos envolveram relações próximas, sendo 70% por parte de companheiros e 11% ex-companheiros. Cerca de metade (46%) dessas mulheres relataram impactos da violência em suas vidas profissionais, seja pelo aumento do número de faltas ou queda na produtividade, em decorrência do cenário difícil enfrentado na vida particular.

Rosângela destacou ainda que o ambiente de trabalho não está imune à violência de gênero. A economista apresentou um outro levantamento, com base em dados do Ministério da Saúde, que mostram que, em 2024, ocorreram 1.159 casos de agressões físicas contra mulheres no ambiente laboral. "Isso equivale a uma mulher agredida a cada oito horas, durante o exercício da profissão", acrescentou.

seminário mulheres

Uma pesquisa com 125 mil entrevistados de 121 países, realizada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2021, mostrou que um a cada cinco trabalhadores já haviam sofrido violência ou assédio, sendo que 60% das vítimas sofreram múltiplos episódios, mostrando que o fenômeno é recorrente. Dentre as várias formas de violência, as mulheres foram as mais expostas ao assédio sexual (8,2% das mulheres, contra 5,0% dos homens).

As mulheres também são a maioria (64%) entre os afastamentos por saúde mental no mercado de trabalho brasileiro. "Dentro desse grupo, dos afastados, também descobrimos outra desigualdade: as mulheres afastadas receberam benefício médio (R$ 1.977,35) 7% menor do que dos homens afastados (R$ 2.131,04)", destacou a economista.

A desigualdade de remuneração é outra face da violência de gênero no mercado de trabalho. Dados mais recentes, do Relatório de Transparência Salarial, revelam que, no Brasil, o rendimento médio (R$ 3.042) das mulheres é 21% menor que a remuneração média dos homens (R$ 3.864). "Em um ano, elas ganharam R$ 9.859 a menos do que os homens", completou Rosângela Vieira.

O relatório também revela que quanto maior o grau de escolaridade e a posição ocupada, maior é a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Nos grupos com ensino superior, a remuneração média das mulheres (R$ 5.409) era 35% menor que a dos homens (R$ 8.357) com o mesmo grau de instrução. Já no recorte de profissionais em cargos de direção e gerência, mulheres tinham remuneração (R$ 7.546) 28% inferior à remuneração dos colegas do sexo masculino (R$ 10.492). "Por ano, estamos falando de uma perda de R$ 427,8 bilhões anuais na massa de rendimento das mulheres, com impactos no consumo das famílias e na dinâmica das economias", destacou a economista.

A desigualdade de gênero e raça também se repete no setor bancário: em 2024, a participação da mulher negra registrada foi de apenas 12,5%. Em média, a mulher bancária recebe 18,6% menos que o homem bancário. No recorte racial, as mulheres pretas ganham até 37,7% menos que os homens brancos. Já nos cargos de liderança dos bancos (46,9% ocupados por mulheres), as mulheres no geral (desconsiderando o recorte racial) ganham 25% menos que os colegas masculinos que exercem os mesmos cargos.

Rosângela também chamou a atenção para a queda da participação feminina no setor bancário. Entre 2020 e 2025, do total de empregos reduzidos (25.948 vagas) 84,7% foram de postos antes ocupados por mulheres. "Por isso, as conquistas que tivemos na CCT para formação de mulheres na área de tecnologia da informação, e medidas sobre os impactos da tecnologia no setor bancário que protegam os trabalhadores são tão importantes. Precisamos segue ampliando estas conquistas", reforçou Fernanda Lopes.

Entre as estratégias possíveis para superar as desigualdades abordadas na palestra, Rosangela reforçou a necessidade de:

• Enfrentar desigualdades de forma integrada e multissetorial.
• Ampliar parcerias sociais e o papel do movimento sindical nas transições de carreira e proteção ao emprego (a exemplo do programa de formação de mulheres em áreas de tecnologia).
• Investir em políticas públicas de cuidado, com redistribuição das responsabilidades entre Estado, famílias e empresas.
• Fortalecer a negociação coletiva e a proteção social, com foco na equidade de gênero e raça.
• Criar e implementar políticas públicas inclusivas, voltadas à geração de empregos dignos, combate à informalidade e apoio a trabalhadoras com filhos.
• Redução de jornada.

"A redução da jornada, sem redução salarial, beneficiaria todos os trabalhadores, porém mais ainda as mulheres que são mais sobrecarregadas com as chamadas 'dupla jornada' e 'tripla jornada', ou seja, por uma questão imposta culturalmente, até hoje as mulheres são mais responsabilizadas pelos trabalhos domésticos e cuidados de filhos e idosos, do que seus parceiros homens", concluiu.

A secretária-geral do Sindicato dos Bancários de Pernambuco, Chay Cândida, mediadora da mesa, reforçou que, a despeito das dificuldades apresentados por Rosângela, as mulheres devem continuar lutando para ocupar os espaços políticos. "Exercer o feminismo, todos os dias, é agregar qualidade de vida para nós e para as mulheres que virão. Mas esse trabalho inclui conscientizar os homens e aumentar o número de mulheres nos espaços de decisão política, onde as leis são estabelecidas", pontuou.

seminário mulheres


Política Nacional de Enfrentamento à Violência

O seminário contou com a participação de Lígia Freitas, chefe de Gabinete da Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência, do Ministério da Mulher. Ela destacou que as raízes que sustentam o machismo na sociedade são as mesmas que sustentam o racismo. "Chamamos esse fenômeno de 'machismo estrutural' porque é um sistema de pensamento que naturaliza a superioridade masculina e privilegia homens em detrimento das mulheres e está presente, de forma profunda, nas relações sociais, culturais econômicas e políticas. Essa mesma lógica se repete na relação de brancos com as demais populações não brancas, formando uma espécie de teia invisível que molda normas e comportamento, perpetuando as desigualdades não só dentro de casa, nas relações familiares e domésticas, como também no trabalho e na política", explicou. "Em resumo, machismo e racismo estrutural andam de mãos dadas", completou.

Por essa razão, continuou Lígia, o combate das violências geradas pelo racismo e machismo está longe de ser fácil e exige ações complexas, como educação para igualdade, promoção de políticas públicas e conscientização dos homens como agentes de mudança. Entre as ações implementadas pelo governo federal, neste âmbito, Lígia apresentou o "Programa mulher viver sem violência", lançado em março de 2023 e integrado à Política Nacional de Enfrentamento, criada em 2013, durante o mandato da então presidenta Dilma Rousseff. "Então, o programa integra e amplia os serviços dessa política nacional, articulando os atendimentos especializados relativos à saúde, justiça, segurança pública, rede socioassistencial e da promoção de autonomia financeira", explicou.

Lígia Freitas abordou ainda a Política Nacional de Prevenção aos Feminicídios (PNPF), também estabelecida em 2023, por decreto presidencial, baseado em três frentes:
- Mudança cultural (prevenção primária):
O objetivo é transformar as raízes da violência mediante ações de educação, conscientização e enfrentamento à estrutura patriarcal. A 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres faz parte desse eixo.

- Ações imediatas (prevenção secundária):
Identificação dos sinais de risco e implementação de medidas de proteção às vítimas, antes que a violência escale. Um exemplo de ação desse eixo é a criação do Formulário Nacional de Avaliação de Risco (FONAR), ferramenta hoje obrigatória e instituída por Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre CNJ, MJSP, CNMP e Ministério das Mulheres. O formulário agiliza a proteção e padronização de dados para assegurar as vítimas.

- Responsabilização (prevenção terciária):
Garantia de punição ao agressor e reparação às vítimas diretas ou indiretas, a exemplo da Lei dos Órfãos do Feminicídio (criada em 2023 e regulamentada em 2025), que institui uma pensão especial para filhos e dependentes menores de 18 anos de mulheres vítimas desse crime.

Por fim, a representante do Ministério da Mulher falou do "Pacto Brasil entre os Três Poderes", instituído em fevereiro deste ano, para unificar protocolos e garantir que as ações do Executivo, Judiciário e Legislativo funcionem como uma rede de proteção em todo o território nacional.

"Enquanto o PNPF é uma ferramenta de execução e que concentra suas ações na prevenção, com foco em ações direitas do Executivo, sempre buscando a adesão dos Estados, o Pacto Brasil é a garantia da união institucional e que, por meio da unificação de protocolos, busca melhorar a eficiência das leis de combate ao feminicídio", concluiu.

seminário mulheres


O papel das bancárias no combate à violência

A programação do seminário terminou com uma exposição de Phamela Godoy, assessora jurídica da Contraf-CUT e coordenadora do "Basta! Não irão nos Calar!", programa de assessoria jurídica e humanizada para bancárias vítimas de violência doméstica, idealizado e realizado pelo movimento sindical bancário. Ela relembrou que o primeiro canal foi instituído em 2019. Hoje, em 2026, 14 entidades fazem parte do Basta, abrangendo o atendimento de bancárias de 485 cidades do país.

Nesse período, o Basta:
- Ingressou com 523 processos judiciais.
- Entre esses processos, 317 são medidas protetivas de urgência, incluindo a primeira decisão do país que determinou a retirada de conteúdo ofensivo das redes sociais, como forma de medida protetiva.

"O Basta é o resultado de uma trajetória ampla, das mulheres do movimento sindical, que têm consciência de que enfrentar a violência doméstica e familiar é uma responsabilidade de toda a sociedade", observou. Durante sua palestra, a Phamela destacou ainda que o programa tem um importante papel na capacitação de advogadas e dirigentes. "A capacitação que damos é fundamental para duas coisas: primeiro para que o Basta ofereça o melhor suporte no acesso das medidas protetivas de urgência, fundamentadas na Lei Maria da Penha, em questões cíveis (como divórcio, guarda e pensão), e em questões penais, para que haja a responsabilização criminal dos agressores. Segundo, auxiliar as bancárias no acesso aos direitos conquistados pela categoria na Convenção Coletiva de Trabalho, como transferência de local de trabalho, alteração de horário de entrada e saída, atendimento psicológico e alternância entre regime presencial e teletrabalho", pontuou.

Ao final do evento, a secretaria da Mulher da Contraf-CUT lançou um vídeo de promoção do Basta. Clique aqui para assistir.

Encontre mais notícias relacionadas com os assuntos

Filtrar Notícias pelo assunto:DiversidadeMovimento SindicalMulher