
Caixa lucra R$ 7,4 bilhões no semestre e CEE cobra valorização dos empregados

A Caixa Econômica Federal registrou lucro líquido contábil de R$ 7,368 bilhões no primeiro semestre de 2026. O resultado é R$ 2,416 bilhões inferior aos R$ 9,784 bilhões obtidos no mesmo período de 2025, o que representa queda de 24,7%.
Um fator relevante para a queda no lucro foi a forte elevação das despesas com provisões para perdas de crédito. Elas passaram de R$ 5,617 bilhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 13,484 bilhões neste ano, alta de 140%. Outro fator que deve ser considerado é a entrada em vigor, em janeiro de 2025, da Resolução CMN 4.966, que alterou a metodologia de reconhecimento de perdas esperadas e produziu efeito favorável sobre a base de comparação do ano passado.
Apesar da redução na comparação semestral, os números do segundo trimestre mostram aceleração do resultado: o banco lucrou R$ 3,899 bilhões entre abril e junho, alta de 5,9% em relação ao 2º trimestre de 2025, quando havia lucrado R$ 3,682 bilhões, e de 12,4% sobre o 1º trimestre de 2026, quando o lucro foi de R$ 3,469 bilhões.
Para a coordenadora da Comissão Executiva dos Empregados (CEE) da Caixa, Luiza Hansen, o balanço demonstra mais uma vez a capacidade do banco de obter resultados expressivos e reforça a importância do trabalho de seus empregados.
“A Caixa continua apresentando resultados bilionários, ampliando sua carteira de crédito e aumentando sua presença na vida da população brasileira. Esses resultados não surgem sozinhos. Eles são construídos diariamente pelas empregadas e pelos empregados. Por isso, o reconhecimento precisa chegar a quem faz o banco funcionar, com valorização salarial, melhores condições de trabalho, uma PLR que distribua adequadamente os resultados e programas de remuneração variável e premiação mais justos, transparentes e acessíveis a todos”, afirmou.
Como referência, o lucro líquido recorrente foi de R$ 7,368 bilhões no primeiro semestre de 2026, ante R$ 8,938 bilhões no primeiro semestre de 2025, redução de 17,6%. Nos dois primeiros trimestres de 2026 e no segundo trimestre de 2025 não foram registrados eventos classificados como não recorrentes e, por isso, nesses períodos o lucro contábil e o recorrente coincidem.
A diferença entre as quedas do lucro contábil e do recorrente na comparação semestral exige atenção à base de comparação. Em 2025, o resultado contábil do primeiro semestre recebeu impacto líquido positivo de R$ 846 milhões de eventos não recorrentes, que envolveram, entre outros itens, avaliação atuarial extraordinária do REG/Replan e ganho com a alienação de ações da Caixa Seguridade. Em 2026, não houve eventos dessa natureza.
Mesmo nesse cenário, indicadores importantes da atividade bancária avançaram. A margem financeira atingiu R$ 37,944 bilhões no semestre, crescimento de 16% sobre 2025, e as receitas com prestação de serviços e tarifas chegaram a R$ 14,928 bilhões, alta de 12,7%. Os ativos da Caixa alcançaram R$ 2,389 trilhões em junho, expansão de 12,7% em 12 meses.
Crédito cresce e habitação supera R$ 1 trilhão
A expansão do crédito é um dos principais indicadores da relevância econômica e social da Caixa. A carteira total encerrou junho em R$ 1,448 trilhão, crescimento de 11,9% em 12 meses e de 2,7% no segundo trimestre. O banco detinha 19,6% do mercado de crédito brasileiro. No primeiro semestre, foram realizadas R$ 365,6 bilhões em novas contratações, 16,3% a mais que no mesmo período de 2025.
O destaque continua sendo o financiamento da casa própria. Pela primeira vez, a carteira de crédito imobiliário da Caixa superou a marca de R$ 1 trilhão, chegando a R$ 1,005 trilhão. O saldo cresceu 15% em 12 meses e 4% entre março e junho e já representa 69,4% de toda a carteira de crédito do banco.
Dos financiamentos imobiliários em carteira, R$ 618 bilhões utilizam recursos do FGTS e R$ 387 bilhões, recursos da própria Caixa. As novas contratações habitacionais somaram R$ 137,6 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 29,3% sobre igual período de 2025. No segundo trimestre foram contratados R$ 73,3 bilhões, 28,2% a mais que um ano antes e 14,1% acima do primeiro trimestre.
A Caixa encerrou junho com 67,9% de participação no mercado brasileiro de crédito imobiliário, reforçando uma característica que diferencia o banco público de seus concorrentes: sua capacidade de utilizar crédito em larga escala como instrumento de política habitacional, geração de empregos e dinamização da cadeia da construção civil.
O crescimento da carteira exige, ao mesmo tempo, acompanhamento da qualidade do crédito. A inadimplência total acima de 90 dias ficou em 3,64% em junho, ante 2,66% um ano antes, mas recuou 0,07 ponto percentual em relação a março. No financiamento imobiliário, a inadimplência era bem menor, de 1,45%, e caiu 0,15 ponto percentual no trimestre.
Mais clientes e contas para praticamente o mesmo número de empregados
Se os indicadores de negócios crescem, os números do quadro de pessoal mostram uma trajetória bastante diferente. A Caixa terminou junho com 84.136 empregados. São apenas 86 trabalhadores a mais que os 84.050 existentes um ano antes, mas 227 a menos do que em março, quando havia 84.363, e 258 a menos do que no fechamento de 2025, quando o banco contava com 84.394 empregados.
No mesmo intervalo, a base atendida continuou crescendo. A Caixa chegou a 160,378 milhões de clientes e 248,192 milhões de contas em junho. Em março eram 159,249 milhões de clientes e 244,781 milhões de contas; no fim de 2025, 157,207 milhões e 240,472 milhões; e, em junho do ano passado, 156,139 milhões de clientes e 237,195 milhões de contas.

Em apenas seis meses, portanto, o banco ganhou 3,171 milhões de clientes e 7,720 milhões de contas, ao mesmo tempo em que reduziu o quadro em 258 empregados. Na comparação com junho de 2025, são 4,239 milhões de clientes e quase 11 milhões de contas a mais, para um aumento de apenas 86 empregados.
A transformação é ainda mais evidente quando a comparação recua dez anos. Em junho de 2016, a Caixa possuía 95.687 empregados. Desde então, foram eliminados 11.551 postos de trabalho, redução de 12,1%. No mesmo período, a quantidade de clientes cresceu 88,5%, de 85,1 milhões para 160,4 milhões, e o número de contas aumentou 171,9%, de 91,3 milhões para 248,2 milhões.
Com isso, a relação passou de 889 para 1.906 clientes por empregado e de 954 para 2.950 contas por empregado. Em dez anos, o número de clientes por trabalhador mais que dobrou e o de contas por empregado mais que triplicou.
O contraste é ainda maior com 2014, quando o quadro chegou a 101.484 empregados, maior patamar da série historicamente utilizada pela Contraf-CUT. Em relação àquele período, a Caixa possui hoje 17.348 empregados a menos, redução de 17,1%, apesar de ter mais do que dobrado sua base de clientes e quase triplicado o número de contas.
A relação entre clientes ou contas e empregados não equivale, isoladamente, a uma medida direta de carga de trabalho, pois digitalização, automação e mudanças nos processos alteram a forma de atendimento. Mas a evolução dos indicadores mostra a ampliação extraordinária da escala operacional sob responsabilidade de um quadro significativamente menor do que o existente há dez anos.
“Tecnologia é fundamental e deve ser utilizada para melhorar o atendimento e facilitar o trabalho, mas ela não elimina a necessidade de pessoas. Hoje temos praticamente o mesmo número de empregados de um ano atrás, menos trabalhadores do que há seis meses e mais de 11 mil a menos do que há dez anos, enquanto a quantidade de clientes, contas, negócios e atribuições cresce continuamente. Essa combinação aumenta a pressão sobre as equipes e precisa ser enfrentada com contratação, dimensionamento adequado das unidades, gestão de pessoas e fim da cobrança abusiva por metas”, disse Luiza.
A pauta específica dos empregados para a Campanha Nacional dos Bancários 2026 reivindica ampliação do quadro por meio de novas contratações, além do estabelecimento de parâmetros mínimos de lotação compatíveis com a demanda de cada unidade para evitar sobrecarga e preservar o atendimento.
Adoecimento acende alerta
Os dados sobre saúde reforçam a preocupação. Pesquisa realizada pela Fenae em 2025, com 3.820 empregados da ativa e aposentados de todas as regiões do país, avaliou condições de trabalho e percepções sobre saúde física e mental.
O levantamento apontou a cobrança por resultados, o ritmo acelerado de trabalho e a fiscalização constante do desempenho entre os principais riscos psicossociais. O estudo estima que ao menos dois terços dos trabalhadores pesquisados podem estar trabalhando adoecidos. Também mostrou que 41% consideram o risco de descomissionamento uma ameaça constante e 55% se sentem pressionados a vender produtos que não consideram úteis ou benéficos aos clientes.
Outro indicador preocupante é que 32% declararam usar medicação psiquiátrica por motivos relacionados ao trabalho, enquanto 37% dos participantes relataram diagnóstico de problema de saúde mental relacionado ao trabalho.
“Não podemos discutir balanço olhando somente para lucro, carteira de crédito e eficiência. Precisamos olhar também para as pessoas que produzem esses resultados. Quando o quadro é insuficiente, a cobrança por metas é excessiva e a ameaça de perda de função vira instrumento de pressão, o custo aparece na saúde dos empregados. Um banco público forte precisa ser economicamente sólido, mas também precisa ter um ambiente de trabalho saudável e respeitoso”, afirmou a coordenadora da CEE.
Resultado precisa se refletir em valorização
Para a representação dos empregados, os resultados reforçam a cobrança para que a solidez financeira da Caixa seja acompanhada pela valorização de quem trabalha no banco.
A minuta específica da Campanha Nacional dos Bancários 2026 reivindica, entre outros pontos, uma PLR Social equivalente a 6% do lucro líquido, distribuída de forma linear e sem limite individual, além da retirada de limitadores, maior transparência nos cálculos e participação das entidades sindicais no acompanhamento dos critérios.
Na remuneração variável, a reivindicação é pela revisão do Super Caixa, com adoção do princípio “vendeu, recebeu”, pagamento integral de comissões e premiações, critérios claros e previamente divulgados e regras que não estimulem pressão, competição adoecedora ou assédio.
O Saúde Caixa também está no centro das reivindicações. A minuta pede o fim do teto estatutário que limita a participação do banco no custeio do plano e a garantia da proporção de 70% das despesas para a Caixa e 30% para os empregados. A retirada do teto de 6,5% da folha salarial é uma das prioridades da CEE nas negociações de 2026.
“Um banco que encerra seis meses com R$ 7,4 bilhões de lucro, quase R$ 2,4 trilhões em ativos e uma carteira de crédito de R$ 1,448 trilhão tem resultados que demonstram sua força. O que estamos cobrando é que essa força também seja usada para valorizar quem constrói esses números. Isso significa colocar mais recursos no Saúde Caixa, melhorar a PLR, corrigir os problemas dos programas de remuneração variável e garantir remuneração adequada, contratar mais empregados e oferecer condições de trabalho que não adoeçam as pessoas”, concluiu Luiza Hansen.
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